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quarta-feira, 9 de março de 2011

Teatro na Educação – algumas definições a partir da escola


Por Heráclito Cardoso de Oliveira

            Quando alguém me pergunta sobre a minha formação eu digo: “sou formado em Teatro”, ainda percebo no olhar de algumas pessoas uma surpresa acompanhada de uma indagação; “Ah, educação artística?!”, e eu respondo: “Não, Licenciatura em Teatro, mesmo!”. Muitas pessoas nem sabem que existe formação específica em Teatro, e causam a maior confusão quando falamos de Teatro na Educação. Às vezes eu fico estarrecido com o que vejo e ouço de alguns colegas quando falo no assunto. Percebo que muita coisa precisa ser esclarecida acerca do Teatro como parte do processo educacional do ser humano.
            A falta de informação, por parte de muitos profissionais de educação, gera uma série de equívocos que comprometem o desenvolvimento saudável do Teatro na escola. São muitas as ideias estereotipadas que foram criadas no ambiente escolar acerca do Teatro.
            Então, para que serve o Teatro na escola?
- O Teatro na escola serve para compor a programação das festinhas de datas comemorativas, certo?
Errado! - as festinhas ligadas às datas comemorativas (páscoa, dia do índio, dia das mães, etc.), realizadas dentro da escola, na maioria das vezes não têm nada tem a ver com a realidade dos alunos, tampouco com o fazer teatral, que tem base nos jogos, no lúdico, no brincar. Na maioria das vezes, impõesse ao aluno participar da famosa “dramatizaçãozinha”, onde se deve memorizar um texto, se movimentar de um lado para outro e falar alto. Então eu pergunto: onde está a espontaneidade do aluno? Cadê a criação lúdica, livre? Será que impor a apresentação de uma “dramatizaçãozinha” nas datas comemorativas da escola, não seria um tanto autoritário? Onde está o caráter do jogo? Talvez tenha sido substituído pelo clima de euforia que precede essas comemorações escolares, sem falar no constrangimento que alguns alunos passam, por não estarem preparados para enfrentar um público. Neste sentido, penso não ser este o caminho mais apropriado para definirmos Teatro na Educação.
- É claro que essa coisa de “dramatizaçãozinha” em festinhas escolares, é algo ultrapassado. O certo mesmo é montar espetáculos permanentes com os alunos, não é?
Cuidado! Devemos lembrar que no teatro, tudo surge de processos criativos, a montagem de um espetáculo não deve ser o objetivo do professor, o processo de criação do aluno deve está em primeiro lugar. Não se deve aprisionar o aluno a um texto ou obrigálo a representar este ou aquele personagem. O grande problema das montagens permanentes feitas na escola é a preocupação que o professor tem com o resultado final, com o que o público vai achar, com o texto que deve está na ponta da língua dos alunos... É necessário entender que o aluno também é um criador, capaz de desenvolver sua própria dramaturgia, sua própria forma de interpretar. Outro aspecto relevante dessas montagens escolares é a forma de seleção do elenco; escolhesse este ou aquele aluno para compor o elenco da montagem, porque este ou aquele aluno tem jeito para coisa, tem talento... E os demais alunos? Será que eles também não poderiam contribuir com o processo? Será que não seriam criativos o suficiente para estarem em cena? Será que a montagem não seria uma forma de exclusão? Pensemos nisso.
- Então, vamos usar a interdisciplinaridade; vamos usar o teatro para que os alunos apreendam melhor os conteúdos de português, história, geografia, ciências...
Bem, esta não é uma má ideia, porém devemos tomar cuidado para não dar um passo à frente e dois passos para trás. Quando usamos o Teatro em prol, unicamente, das demais disciplinas escolares, estamos nos apropriando do Teatro como um instrumento pedagógico, uma prática que foi muito comum e que se arrastou por décadas no ensino de Artes do Brasil. Atualmente, com os novos paradigmas acerca do ensino das Artes, sabemos que o Teatro não se limita a ser apenas um instrumento pedagógico, pois ele constituisse como conhecimento. Diante disso, na escola, o ensino de Teatro tem a mesma importância do ensino de português, história, geografia, ciências, matemática... Não é errado usar o Teatro para auxiliar os alunos com as demais disciplinas do currículo escolar, no entanto, o aluno precisa está consciente de que o Teatro não se resume a uma única experiência, precisa sentir e entender a importância do Teatro para a sua vida. Outro alerta: As aulas de Teatro não devem ser substituídas por atividades de outras disciplinas, a menos que estas estejam integradas ao processo criativo das aulas de Teatro.
- Já que o Teatro é importante para a vida, é uma arte que ajuda a “liberar as emoções”, então vamos usar o Teatro para despertar as emoções dos alunos, para ajudálos com seus traumas, medos e inquietações.
            Espere um pouco... Antes de fazermos qualquer coisa neste sentido devemos nos perguntar: O que fazer depois que eu despertar as emoções dos meus alunos? Eu sei lidar com isso? Tenho formação em psicologia? Até que ponto eu posso me meter nas emoções alheias? Pois é, é preciso tomar muito cuidado com a forma como usamos o Teatro no trabalho das emoções dos outros. Às vezes podemos despertar emoções incontroláveis nos alunos, podemos desencadear problemas que não saberemos solucionar. Devemos lembrar que cada pessoa é única, cada pessoa tem uma história de vida com momentos maravilhosos ou traumas indeléveis e profundos. Por isso, se não tivermos uma formação específica em psicologia ou um conhecimento profundo do assunto, não devemos mexer com as emoções alheias. Na prática dos jogos, das cenas e brincadeiras dramatizadas, é possível que identifiquemos essas emoções, medos, traumas, porém devemos encaminhar o aluno, se for o caso, a um profissional habilitado.
- Sendo assim, trabalharei mais com a teoria, ensinarei estética, história do teatro, dramaturgia, etc.
            1º: É um caminho interessante, desde que os alunos tenham a cognição suficientemente desenvolvida para ler, discutir, refletir, argumentar, discordar... Não adianta, por exemplo, falar de “dramaturgia” para um aluno que mal sabe ler. É claro que você pode explorar dramaturgia com ele, através de jogos, imagens, contação de histórias, mas dificilmente ele apreenderá o conceito de forma muito técnica, teórica. 2º: Teatro não é só teoria, a prática é fundamental. 3º: Não podemos ensinar Teatro esperando um produto final como resultado, em outras disciplinas escolares isso é até possível, mas o Teatro, como parte do processo de desenvolvimento do ser humano, em princípio, sensibiliza o indivíduo com o mundo, redimensionando o entendimento sobre as coisas que o cercam. O Teatro não se restringe a teorias, fórmulas, métodos.
- Então o que é Teatro na Educação? Como fazer na escola?
            Não existe a forma correta, a fórmula ideal, a receita pronta, o que existem são apontamentos, caminhos. Basta relermos os parágrafos anteriores, refletirmos sobre nossa própria prática na escola e encontraremos possíveis caminhos a seguir. As pessoas são diferentes, pensam e agem de formas diferentes umas das outras. A escola é uma instituição formada por pessoas diferentes, por isso cada escola tem suas especificidades. Neste sentido, podemos dizer que o professor precisa encontrar o caminho que melhor corresponda à realidade de sua escola. Somos responsáveis por desmistificar a visão estereotipada que algumas escolas ainda têm acerca do Teatro. A escola precisa ser um ambiente que possibilite aos alunos atividades lúdicas, um ambiente onde os alunos possam se expressar, contar, recontar e criar suas histórias. Na escola os alunos precisam sentir segurança para mostrar sua arte para os amigos, seja no pátio, na sala de aula, no corredor ou em qualquer espaço onde caiba ator e espectador.
            Não há necessidade de equipamentos e/ou materiais especiais, pois o professor tem o mais especial dos materiais; a criação dos alunos, as coisas que eles inventam, os objetos que descobrem. Qualquer hora é hora, não precisa esperar chegar o dia das mães, dia do índio ou qualquer outra data comemorativa para que o aluno se expresse artisticamente, o aluno deve se alimentar da espontaneidade do tempo e do espaço.
            O que fazer quando o aluno quiser criar? Contemple, ouça, aprecie, intervenha e aproveite a oportunidade de desvendar com ele o misterioso caminho do Teatro na Educação.

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